domingo, 6 de junho de 2010

1.1- A exclusão do Diferente


Esta pintura de Banksy não está em uma parede qualquer. Ela se encontra no muro que separa Israel da Palestina, do lado da Palestina. Banksy mostra duas crianças brincando felizes atravéz de um buraco feito no muro, como se do outro lado existisse um paraíso inacessível aos palestinos. Os conflitos entre Palestina e Israel se arrasta desde a fundação do estado de Israel, após a 2ª Guerra Mundial. O território de Israel é considerado terra sagrada para três religiões: cristãos, judeus e muçulmanos. Foi considerado, por ser o território da origem biblica dos povos judeus, o lugar ideal para abrigá-los após as perseguições que sofreram com o nazismo alemão. Acontece que esse território já abrigava povos muçulmanos há mais de 1000 anos. Ao longo de mais de 50 anos de conflitos, Israel conseguiu reduzir os palestinos à menor parte da território: do lado de Israel, um exército altamente treinado e fortemente equipado, com o apoio dos Estados Unidos; do lado da Palestina, organizações com armamento bastante inferior, no entanto, considerados terroristas. Desde 2002 o governo de Israel está erguendo uma muralha para impedir que os palestinos da Cisjordânia transitem por Israel.
A estratégia de cercar os diferentes remonta às sociedades disciplinares, conceito criado pelo filísofo Michel Foucault. As sociedades disciplinares existem segundo um princípio de que tudo que desvia de um padrão de normalidade historicamente construido é considerado perigoso, devendo ser eliminado, corrigido ou excluído do contato com os "normais".
-Isso aconteceu na Alemanha Nazista, onde a defesa de um padrão genético e ideológico puramente ariano legitimou a perseguição e o extermínio de milhões de judeus, mas também de negros, homossexuais, deficentes físicos, militantes comunistas etc;
-Isso aconteceu na África do Sul, quando era governada pela Inglaterra, que impunha a segregação social entre brancos e negros;
-Isso acontece em Israel, onde o rótulo de fanáticos religiosos e terroristas dado ao povos árabes que lá habitam legitimam o controle e o lento extermínio desses palestinos pelo Estado israelense;
-Isso acontece na sua escola, quando um colega de sala é excluído das rodinhas de conversas e é constantemente zuado por ser gordo, ou por ter trejeitos afeminados por exemplo.
Mas como esses padrões de normalidade são construídos?
-A medicina, a partir do século XVIII, começa a servir para nomear um tipo físico normal, nomeando também os que desviam dessa norma, caracterizando-os como doentes, os deficientes;
-A psiquiatria é a responsável por classificar o ideal de normalidade mental, sendo os sujeitos que não se encaixam nesse ideal, considerados loucos ou anormais;
-O direito nomeia as normas de conduta dos sujeitos normais através das leis, sendo aquele que não as cumpre, um criminoso.
Como vimos, esses padrões de normalidade passam a ser reproduzidos nas escolas, nas famílias, tornando-se cada vez mais verdades aceitas por todos, o que faz com que todos tomem posturas repressoras em relação aos que são diferentes.
Hoje em dia, a ciência e a justiça continuam a definir padrões de normalidade, mas talvez o veículo mais poderoso de criação e sustentação desse padrões tenha se tornado a televisão. Ao longo de toda a programação televisiva são lançados ideais morais, de comportamento, de status social e de beleza. A eficiência da mídia em moldar padrões de comportamento se materializa no comportamento das pessoas enquanto consumidoras, tendemos a comprar a nossa felicidade consumindo aquilo que a propaganda, as novelas e os telejornais nos mostram como positivo. Dessa forma, mais perto estamos de ser uma "pessoa normal", quando temos o último i-pod, o último célular, as roupas de tal personagem, o corpo de tal atriz, as gírias de tal humorista... quanto mais nos aproximamos desses padrões, mais populares somos, e quanto mais nos afastamos deles, mais somos excluídos do convívio social.
É por isso que Banksy mostra o muro quebrado da Palestina como motivo de alegria. Além de fazer a crítica a situação particular de opressão vivida pelo povo paestino, podemos interpretar o desenho de Banksy como querendo dizer que as paredes que existem entre as pessoas, essas paredes que são erguidas pelos padrões de normalidade, pelas leis, pelas diferenças étnicas e sociais, pelos mecanismos de exclusão, essas paredes devem ser derrubadas, pois nos fim somos todos iguais, exatamente por semos todos diferentes.

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